Há tempos tenho vontade de escrever sobre o tema, porém ficava com medo de desagradar (e vou) a maioria das pessoas que conheço e que pelas manifestações do face, pensam diferente... o que respeito também. Porém como os cinquenta anos servem para alguma coisa, inclusive para assumir que não sou uma fofa (gostaria, mas não sou), lá vai...
Agora que o Brasil acordou, de repente descobriu culpados para tudo! Muito bacana termos consciência, opinarmos, saber realmente o que é importante, qual a responsabilidade e o peso do nosso voto. Mas quem está manipulando nossas manifestações? Serão elas livres de qualquer indução? Serão elas originárias do cansaço com a corrupção, com o desmando, com o mau uso da coisa pública? Com a falta de educação de qualidade, da saúde pra todos?
De todas as manifestações, principalmente as virais do face, gostaria de destacar aquelas sobre os chamados programas sociais do tipo Bolsa Família, cotas para universidade, auxílio reclusão, benefícios eventuais (cesta básica, passagens, auxílio funeral), entre outros. A classe média está revoltada contra essas políticas. Terá ela razão? Revolta-se contra as políticas sociais chamando-as de assistencialistas, culpando-as sobre a alta taxação de impostos, que não ensina a pescar, que dá bolsa-bandido... Que dá o peixe, que pode ter filho que o governo cuida...
Ora, nossa classe média é formada por eu e você, que damos duro pra estudar, ralamos pra conquistar a casa, o carro, pagar escola particular para os filhos e o plano de saúde. Sim, porque a classe média sempre buscou alternativas paralelas às ações de governo. Quando a escola pública perdeu qualidade (em função da universalização), fomos atrás da escola particular... Quando a saúde pública estava insuficiente, compramos os planos de saúde... Nunca lutamos pela melhoria das já existentes. O pobre diabo que se lascasse... Estávamos bem, com nossas necessidades básicas resolvidas. Mas a grande maioria do povo brasileiro continuava alijado da boa escola, da saúde, do lazer, da universidade, da casa própria.
Aí veio a Constituição Cidadã. Antes um pouquinho, a classe média acordou. Éramos filhos da ditadura militar, isso precisava mudar e mudamos. A constituição brasileira é uma das mais avançadas do mundo, resultado de construções legítimas da sociedade brasileira. A universalização do ensino, os programas sociais que permitem a assistência à família, ao pobre, ao desamparado, o direito à casa própria, tudo isso está lá na constituição. Todos são derivados do artigo primeiro da CF com seus cinco incisos: a soberania, a cidadania, a dignidade humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político são os fundamentos da República Federativa do Brasil. O artigo terceiro refere-se diretamente a "erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais", entre outros incisos de igual importância.
Portanto, instituir programas que visem resgatar a dignidade humana é obrigação da união,seja qual for seu governante ou partido, pois é um princípio constitucional, defendido exatamente pelo povo brasileiro. Porém, é bom que fique claro, quem dá vida às leis somos nós... A "opção preferencial pelos pobres" (parodiando a igreja católica latina), realmente é uma opção de governo, de política de estado. Ou o governo quer mudar a vida do pobre, ou deixa correr o capitalismo selvagem, o neo-liberalismo a la Collor de Mello (quem não tem competência não se estabelece, lembra?). É aí que se alinham os partidos e suas ideologias. É a partir desse conhecimento que fazemos a opção partidária: ou damos vida às leis ou ficamos à mercê de manipulações. E é aqui que eu queria chegar.
É preciso tratar os desiguais de forma desigual, para que haja igualdade..
Não faltará em nós um pouco mais de conhecimento, formação, boa vontade, generosidade e até mesmo misericórdia (que quer dizer "olhar a miséria do outro com o coração"), quando criticamos o bolsa família? É claro que muitos fazem mau uso desta ajuda, porém não é possível que ainda pensemos em atingir 100% de perfeição, correção. Com o ser humano isso não é possível. E quando achamos que o filho menor do presidiário, que era segurado do INSS, quer dizer, contribuiu, não tem direito ao auxílio-reclusão e criticamos o bandido que recebe R$ 915,00 reais por mês (valor que na verdade é o teto para o auxílio reclusão).
Ou ainda quando queremos negar as cotas universitárias, fingindo que o Brasil não é extremamente injusto com sua população negra, pobre...
Não venceu na vida porque é preguiçoso, porque não trabalha, porque é relaxado ou não melhorou na vida porque lhe faltaram oportunidades, uma escola próxima, um transporte escolar, uma família que não lhe espancasse, uma mãe que o olhasse com carinho e afeto e não como estorvo? Lhe falta motivação, mas como é seu meio, suas amizades? Quais e quem são seus exemplos e referências? Quem diz que lhe ama? Pra quem ele é importante?
Porque queremos tanto libertar nosso pobre dos programas sociais?
Porque é tão importante pra nós classe média acomodada e feliz com nossas escravinhas brancas, quer dizer, empregadas domésticas, que o pobre continue lá na classe F, G, H... Para nos sentirmos melhor vendo que tem outro pior que nós?
Queremos repetir com nossos pobres o 13 de maio e fingir que "libertamos" nossos pobres da escravidão das cotas e das bolsas? Libertar os escravos de hoje deixando-os livres para serem o que quiserem, igualzinho antes: A partir de hoje, negros, vós sois livres, porém atrelados a nós e dependentes de nossa boa vontade, porque vós, negros, não foram às escolas, não possuem terras, não são donos de comércio e por isso, hão de ficar gerações e gerações como escravos .... alforriados no papel.
A quem, classe média, estais servindo? A que jogo político está se prestando? A quem interessa a volta ao passado? A que passado queremos voltar?
A escola era melhor... Mas uma escola para poucos. E quem eram esses poucos que iam às escolas? Os melhores, os mais saudáveis, os que viajavam à Europa, quer dizer, os que reuniam as condições ideais para a aprendizagem.
A saúde era melhor? Mas quem tinha acesso à ela?
Nós, classe média que se gaba do esforço pessoal que fez para estudar, que se vangloria das dificuldades enfrentadas, nem solidários somos com que nem coragem pra lutar tem. Programas sociais não são mesmo pra nós. São pra quem precisa de ajuda. Nós somos fortes, esclarecidos, bem formados, com família certinha e igreja aos domingos ou ... terapia quando necessário.
Qual é mesmo a causa da sua indignação contra os programas sociais?